quarta-feira, 23 de agosto de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS

NOITE EM CATAGUASES
(Releitura de Joaquim Cardozo)
                                                                                                             

Noite em Cataguases.
Na Ponte Velha a inscrição de Virgílio batizando o metal.
Fachada desbotada da Casa Rama.
Ancoradouro no areião da rodoviária. Flamboyants.
Da torre em forma de ogiva da Matriz de Santa Rita
os olhos da escuridão denunciam
que outros pecados implodirão o confessionário.

Pouca gente sem pressa, tantos homens dissimulados.
A algaravia nos trailers de cachorro quente: convulsão dos estômagos.
Um motociclista calunia a cidade que dorme!
Calmaria, auge do insondável. O trem cargueiro deflora a insípida madrugada.

Cataguases sem festa, dos silêncios, das ausências.
Das imensas crateras na alma de seu povo.
Que não enxerga, nunca, homiziado nos becos solitários,
a tristeza hiperbólica dos operários imunes aos barcos que deslizam sobre o rio Pomba.
Cataguases, senzala sem promessa:  das ilhas, dos espíritos desertos,
que foram cuspidos pelas chaminés expectorantes das fábricas de tecidos.

E da feiura caótica e trevosa das enchentes.

 Contemplo o esqueleto de cimento
contrastando com a opulência da avenida feérica
com suas vísceras à mostra
como um cão faminto
sem força para rosnar

sem alma
sem nada

desossada estrutura, palavra

sem cal
nem mal

Lugar sem nome
vazio que se impõe

ovário vertical germinando indiferenças
túmulo de histórias

Apenas um espantalho inútil
na lavoura de espantos da metrópole

passam por ti os homens
não se movem
nem têm medo



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