sábado, 21 de abril de 2018

CLUBE LEITURA SERÁ LANÇADO NO DIA 24


A Livraria Leitura lança na próxima terça-feira o ClubeLeitura  – um serviço de assinatura de livros que entregará aos associados até três exemplares a cada mês. Os títulos serão selecionados por uma comissão de consultores literários formada por Ana Maria Machado, Leila Ferreira, Paula Pimenta e Menalton Braff.

Um dos diferenciais do serviço é a inclusão, em seu pacote completo, de livros infantis e juvenis. Segundo Marcus Teles, o presidente da Livraria Leitura, “o Clube Leitura pretende potencializar todo tipo de vivência que um livro pode proporcionar: conhecer autores novos, expandir as fronteiras, os hábitos literários e até mesmo aproximar pais e filhos, por meio do compartilhamento do prazer de ler”.

Inicialemnte, as assinaturas serão feitas apenas pelo site www.clubeleitura.com.br, mas a partir de 5 de maio, os interessados também poderão se inscrever nas lojas da rede Livraria Leitura.

A Livraria Leitura é uma empresa que nascida em Minas Gerais, que hoje já conta com mais de 70 livrarias em todo o país.

Conheça os consultores literários que farão a seleção dos títulos:

sexta-feira, 20 de abril de 2018

CONTOS CORRENTES

Matraca e Carcará 
(Sada Ali)

A matraca açoitava, reproduzindo estalos idênticos e monótonos. O braço musculoso do homem – anos de destreza, cintilava sob as gotículas do suor da faina diária. Sobreviver sangrava, flagelava o mundaréu de ossos desconjuntados do pobre que arrastava pés e pernas já cansados da vidinha-de-meu-deus. Cada passo um esforço; e carregar a matraca agregava outro suplício. Mantê-la na posição vertical, tortura. Acachapa a fraqueza e a arrasta, já sem tanta galhardia. Se roupa rota teria que coser com linha de saco pra rasgo remendar, farrapo de gente nada a reparar – sopesava no resto de miolo bom dum cérebro já cozido pelo quentume do sol.

Meus ouvidos se abriam e a boca salivava. A casquinha de biju era o meu biscoito mais querido. Para infortúnio dos que podiam bancar, sobrava um tanto no chão ainda maior do que o naco retido em suas mãos diria afortunadas, ricas; arriscaria até nobres. Desdito alheio, mas para mim o único tempo de provar daquela gostosura que, como a matraca, reverberava em minha mente petiz. Ribombava. Atordoava. Insistia. Ecoava. Fome. Tinha

quinta-feira, 19 de abril de 2018

INÉDITO

Nesta coluna, Menalton discorre sobre cada um de seus livros inéditos.
Neblina

Neblina foi produzido como resultado de uma diversidade muito grande de ideias, lembranças, e seu início, se não me engano, não teve uma motivação muito clara.

A ideia que já me vinha de longe tentando transformar-se em alguma coisa como narrativa literária era a ideia de um retorno em que tudo parecia menor. Alguém sai de um ambiente tacanho, vê o mundo lá fora e, na volta, tem a impressão de que tudo diminuiu em seu antigo habitat. Mas não só, tudo parece coberto de bruma, tudo está obscuro.

Depois desta ideia geratriz, me pareceu que narrar a luta do herói para transformar seu antigo ambiente vai ser uma luta sem sucesso por causa do conservadorismo meio que suicida de pequenas comunidades. A falta de ligação com o mundo, com seu dinamismo, é provavelmente a causa desse conservadorismo.

Então pensei a estrutura do romance dividida em duas partes. A primeira é a chegada ao ambiente em que estivera ausente, quando se transforma uma espécie de herói; então uma segunda parte, o herói tentando mudar as coisas e encontrando a muralha do pensamento conservador que predomina na comunidade, resultando por fim em sua saída, totalmente vencido.

Progresso x estagnação talvez seja o tema principal do romance. Não sei, como acontece com mais de uma dezena de originais que mantenho em arquivos, se um dia será publicado.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

CANTIGAS DE AMIGOS

(Poema de Maria Carpi* )

O cego adentra nas coisas
mais que o olho sadio. O cego
guia-se no vazio pela palavra
cênica, passo a passo, sem cortinas.
O cego acalma a tonalidade
da pigmentação, sem pincéis,
escorrendo as tintas entre
dedos da palavra pictórica.
E enxerga ouvindo o silêncio
deixando que tudo se acerque
e venha beber em sua palma.
No cego a luz descansa.

*Publicado no livro "O Cego e a Natureza Morta",
Editora Ar do Tempo

terça-feira, 17 de abril de 2018

ORELHA

807 dias

Estes trinta contos que a Vanessa Maranha reuniu sob o título de "Oitocentos e sete dias", foram escritos com a já conhecida competência da autora para nos surpreender. O livro, dividido em duas partes, mantém o leitor numa incrível viagem pela vida de suas personagens, uma viagem que não é possível interromper.

Vai faltar o ar, muitas vezes, com a queda livre vertiginosa. Assim são seus contos: saltos no vazio, de onde a autora tenta resgatar o que nos resta de humanidade.

Nos dez contos da primeira parte, a autora explora aspectos grotescos do convívio humano, tendo como conto emblemático este formidável Castiços, em que uma família de brutos vê-se ligada aos senhores da terra. O final, nos moldes do realismo mágico ontológico, é inteiramente inesperado.

Do primeiro parágrafo do conto, extrai-se o fragmento abaixo:
Que o que vem de fora não presta. Que o chão bem plano é o melhor lugar para os pés, ainda que contrariados. Que não nos engraçássemos pelos chamamentos da casa senhorial; nosso merecimento, a colônia e os seus despojos. Que tatus éramos de origem, destinados ao rés do chão, depois à sua profundeza em cova e nada mais.

Mas tanto nestes como nos vinte contos da segunda parte, a impressão que nos fica é a de uma autora tecelã da linguagem, surpreendendo-nos em cada parágrafo com o insólito de suas combinações, com

segunda-feira, 16 de abril de 2018

CARTAS DO INTERIOR

Esta coluna reúne crônicas inéditas de Menalton Braff.
Variantes alofônicas

Mas também variações melódicas. E estamos falando do modo como nas várias regiões os falantes fazem uso da língua.

Quando cheguei ao interior, as pessoas me olhavam curiosas a ponto de me sentir constrangido, como se estivesse com a cara suja. Então, o Valdecir, que se tomou de amizade por mim, indagado, explicou que não era coisa de maldade, mas o estranhamento com meu modo de falar. Mas eu também estranho vocês, respondi. E meu novo amigo acrescentou que nada havia que estranhar em seu modo, pois ele e seus conterrâneos é que falavam certo.

E lá me vieram à memória as aulas de linguística: se todos comunicam é porque todos falam certo. Com as variedades que a língua admite.

A melodia das frases foi das primeiras diferenças que percebi, mas eu já sabia que assim como o gaúcho pensa que o catarinense canta para falar, o catarinense acha que quem canta é o gaúcho. O paulistano pensa a mesma coisa do paulista do interior. É pena que as variações melódicas não possam ser descritas por palavras, mas todos em São Paulo costumam imitar frases de, por exemplo, baianos.