quarta-feira, 23 de agosto de 2017

CANTIGAS DE AMIGOS

NOITE EM CATAGUASES
(Releitura de Joaquim Cardozo)
                                                                                                             

Noite em Cataguases.
Na Ponte Velha a inscrição de Virgílio batizando o metal.
Fachada desbotada da Casa Rama.
Ancoradouro no areião da rodoviária. Flamboyants.
Da torre em forma de ogiva da Matriz de Santa Rita
os olhos da escuridão denunciam
que outros pecados implodirão o confessionário.

Pouca gente sem pressa, tantos homens dissimulados.
A algaravia nos trailers de cachorro quente: convulsão dos estômagos.
Um motociclista calunia a cidade que dorme!
Calmaria, auge do insondável. O trem cargueiro deflora a insípida madrugada.

Cataguases sem festa, dos silêncios, das ausências.
Das imensas crateras na alma de seu povo.
Que não enxerga, nunca, homiziado nos becos solitários,
a tristeza hiperbólica dos operários imunes aos barcos que deslizam sobre o rio Pomba.
Cataguases, senzala sem promessa:  das ilhas, dos espíritos desertos,
que foram cuspidos pelas chaminés expectorantes das fábricas de tecidos.

E da feiura caótica e trevosa das enchentes.

 Contemplo o esqueleto de cimento
contrastando com a opulência da avenida feérica
com suas vísceras à mostra
como um cão faminto
sem força para rosnar

sem alma
sem nada

desossada estrutura, palavra

sem cal
nem mal

Lugar sem nome
vazio que se impõe

ovário vertical germinando indiferenças
túmulo de histórias

Apenas um espantalho inútil
na lavoura de espantos da metrópole

passam por ti os homens
não se movem
nem têm medo



terça-feira, 22 de agosto de 2017

IMPRESSIONISMO E LITERATURA

Livro de Braff é tema de ensaio 
sobre Impressionismo e Memória

A Editora da Universidade Federal do Maranhão acaba de lançar livro Impressionismo e literatura” ,  que reúne ensaios sobre o tema organizados por Franco Baptista Sandanello. É a primeira publicação conjunta de integrantes do Núcleo de Estudos do Impressionismo Literário (NEIMP) e dá continuidade à parceria do NEIMP com a EDUFMA iniciada em fevereiro deste ano com o livro "Domício da Gama e o impressionismo literário no Brasil".

Entre os trabalhos acadêmicos contidos no livro, encontra-se “Que enchente me carrega?, de Menalton Braff: Impressionismo e Memória”, da pesquisadora Natali Fabiana Costa e Silva. 

O livro traz, ainda, os ensaios:  “Regionalismo e Impressionismo: faces ocultas da tradição na literatura brasileira”, de André Tessaro Pelinser; “Maupassant e o impressionismo”, de Kedrini Domingos dos Santos; “Evanescência em silêncio translúcido: brevíssimas notas do impressionismo literário em Clarice Lispector (O lustre, 1946)”, de Moisés Gonçalves

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

CRÔNICA

Moralidade de bolso

O manobrista de um estacionamento onde costumo deixar o carro foi com a minha cara e agora não me vê sem que me venha contar uma história. Não posso declinar seu nome por causa do envolvimento moral da história de hoje. Mas, creiam-me, é um jovem do qual não tenho razões para suspeitar. Alguns mais antigos, e outros mais pernósticos, diriam que se trata de um jovem de moral ilibada. Apenas por necessidade narrativa, digamos que seu nome seja Valdecir.

O Valdecir, segundo me consta, nunca leu Machado de Assis. Pelo menos, quando lhe perguntei se tinha alguma notícia do Brás Cubas, enrugou a testa, coçou a cabeça e me respondeu perguntando se era alguma coisa de beber. Fiquei um pouco espantado porque o Valdecir também não tem idade para se lembrar daqueles tempos em que a gente usava cabelo comprido, calça boca-de-sino (de tergal) e nos domingos à tarde, na garagem de algum amigo cuja casa tivesse garagem, se embebedava de esperança no futuro e de cuba-libre.

Meu amigo me contou que há uns meses deu uma nota de cinco para o cobrador (trocador, para quem mora no Rio) e recebeu quarenta e não sei quantos reais de troco. Ao me relatar esse fato, ele sorriu com malícia e acrescentou que o troco era mais, bem mais do que ele ganhava em um dia

domingo, 20 de agosto de 2017

LANÇAMENTOS DA SEMANA


Título: O indizível sentido do amor
Autora: Rosângela Vieira Rocha
Gênero: Romance
Editora: Patuá

Data: 24 de agosto
Horário: 19h
Local: Carpe Diem
Endereço: 104 Sul, Brasília-DF



Título: Todos os abismos convidam para um mergulho
Autora: Cinthia Kriemler 
Gênero: Romance
Editora: Patuá

Data: 24 de agosto
Horário:  19h
Local: Carpe Diem
Endereço: 104 Sul, Brasília-DF

sábado, 19 de agosto de 2017

LIVRO RECEBIDO

Título: Companheira
Autor: Nelson Hoffmann
Gênero: Novela
Editora: Cultuarte

Da orelha:
Este livro é a narrativa de uma experiência real. Aconteceu. Os fatos aconteceram. As consequências continuam acontecendo. Como se diz:'A vida não para'.
Eu diria: "A morte chama".
Isso parece pessimismo. É o contrário, é otimismo. A vida tem que ser celebrada.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CONTOS CORRENTES

Pra onde a gente vai?*
(Metheus Arcaro)

A gente não morre. Fica encantado.
(Guimarães Rosa)

Tarsila entra às pressas. Sequer limpa os pezinhos no capacho como sempre fazia a pedido da mãe. Mamãe, corre aqui! Tô escrevendo, filha. O que foi? A menina incha os pulmões, o segundo grito sai mais encorpado, percorre os cômodos da casa e traz Laura à sala. Óculos na testa, caneta na boca, o rosto a transpirar maternidade. As pegadas de barro no piso de madeira não são notadas pela mulher como habitualmente seriam. Tarsila abre as mãos como se desvendasse as entranhas do mundo. O pássaro consegue ser menor que os dedos dela que crescem há apenas seis anos. Oh, deve ter caído do ninho, filha!

Para o bem-te- vi, naquele instante, respirar é uma tarefa difícil, talvez a mais difícil que a biologia já lhe impusera. Temos que levar ele ao médico de bichinhos, mamãe! Hoje é domingo, meu amor. Eles

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

MOTIVOS


Esta coluna foi criada para que Menalton Braff pudesse contar a seus leitores como surgiu cada um de seus livros. A obra comentada hoje é o romance juvenil "Copo vazio".

MOTIVOS

Copo vazio foi um título difícil. A editora não aceitou Fogo cruzado, minha primeira ideia de título, por ter sido lançado um livro traduzido há muito pouco tempo com esse mesmo nome.

A história foi sugerida pelas conversas que tive com um aluno de terceiro colegial em Ituverava. O garoto era tremendamente rebelde, hostilizando tanto professores como colegas. Me aproximei dele fora da sala, sem pose de professor, sem qualquer referência a seu comportamento. E parecia que era o que ele esperava. Com o passar do tempo começou a confiar em mim, como se fosse seu irmão mais velho, um amigo.

Filho de pais separados, a mãe alcoólatra, então comecei a entender o ódio que ele sentia pelas pessoas. Nem por isso dei uma de conselheiro. Apenas conversava. Sobre o que ele quisesse. Fiquei sabendo de sua proximidade com indivíduos do mundo das drogas, e me pareceu que ele mesmo, eventualmente, era um usuário.

Nossas relações foram sempre de amizade, por isso em sala de aula ele não só me respeitava como procurava mostrar-se proativo e aplicado. A história da tentativa de entrar em uma festa da escola pelo telhado foi verdadeira. Isso aconteceu. Quando me mostrou as escoriações na perna e no braço, confessou-me estar arrependido. Apenas quisera colaborar com um amigo que não pertencia à escola e que queria entrar na festa.

Um dia me disse que às vezes parecia pai e não filho de sua mãe. Pronto. Isso me deu o mote para começar a montar uma história ficcionalizando meu aluno.

A editora FTD publicou o livro em 2010.